1. Quando nasceu o cinema? pag. 2

Mas o cinema não pode ser reduzido apenas a máquinas de projeção, técnicas de animação de imagens ou sessões públicas em sala escura. Na verdade, a sua história compreende algo mais que pesquisas científicas de laboratório ou investimentos na área industrial; ela inclui também um universo mais exótico de manifestações paraculturais obscuras, tais como as práticas de mediunismo, os espetáculos de fantasmagoria (as projeções de fantasmas concebidas por Robertson, por exemplo, causaram impacto no século XIX), várias modalidades de espetáculos de massa (os mágicos de feiras e quermesses, o Teatro Óptico de Reynaud), os brinquedos e adornos de mesa (que frequentemente incluíam aparelhos de síntese do movimento) ou ainda os flip-books (livros cujas páginas mostravam cada uma das fases de um movimento, de modo que, ao serem folheados numa certa velocidade, permitiam visualizar uma única imagem em movimento).

Teatro óptico de Emile Reynaud

Quanto mais os historiadores se afundam na história do cinema, na tentativa de desenterrar o primeiro ancestral, mais eles são remetidos para trás, até os mitos e ritos dos primórdios. Qualquer marco cronológico que eles possam eleger como inaugural será sempre arbitrário, pois o desejo e a procura do cinema são tão velhos quanto a civilização de que somos filhos. Nesse sentido, o crítico francês Jean Louis Comolli acertou em cheio quando afirmou que “não é somente um velho sonho da humanidade que o cinema realiza, mas também uma série de velhas realidades empíricas e de velhas técnicas de representação que ele perpetua“.

Se é difícil dizer quando exatamente nasce o cinema, mais difícil ainda é reconstituir a sua história. Estamos tão condicionados a um modelo de cinema (o cinema de tipo industrial, cujo modelo mais acabado é aquele que se faz hoje em Hollywood) que nem sempre nos é fácil perceber a sua diversidade e a descontinuidade de sua trajetória. A história técnica do cinema, ou seja, a história de sua vertente industrial, pouco tem a oferecer a uma compreensão ampla do nascimento e do primeiro desenvolvimento do cinema. A maioria das pessoas que contribuíram de alguma forma para o sucesso disso que acabou sendo batizado de “cinematógrafo” eram, na realidade, curiosos, bricoleurs, ilusionistas profissionais e oportunistas em busca de um bom negócio. Paradoxalmente, os poucos homens de ciência que se aventuraram pelos caminhos do cinema caminhavam na direção oposta de sua materialização.